ISOLAMENTO

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Belregard é uma terra que compartilha apenas a religião, a fé do Criador, como argamassa para unir seus povos. Desde a queda do império, o isolamento faz-se sentir por todos os cantos destas terras, pouco a pouco menos civilizadas. Esse sentimento de abandono é causado por inúmeros motivos diferentes, que muitas vezes podem até mesmo se contradizer para colocar os homens impotentes em seus lugares, sem fazerem o esforço mínimo para comungar com seus vizinhos. A maior parte das pessoas passa suas vidas inteiras no lugar onde nasceram. Nascem, crescem e morrem sem ter colocado o pé na estrada, sem ter a menor ideia do que pode existir do outro lado do lago, da floresta ou da montanha. Mesmo os mercadores, que se esforçam para fazer suas trocas, ou ganhar algumas moedas, não costumam ir muito longe, sempre acompanhados de outros, corajosos ou loucos, por proteção.

O Isolamento de Belregard pode ser sentido por motivos naturais, de tempo, de clima, também motivos políticos, guerras decladas ou inimizades e também pela superstição nos agentes do Inimigo, que percorrem o mundo e aguardam nas sombras por uma oportunidade para fisgar a alma do inocente. Em termos gerais, é este último fator que prende as pessoas em casa, o medo do desconhecido, do que pode existir depois de onde os olhos enxergam. Junte o medo natural com os sermões dos padres, falando sobre os perigos existentes no mundo, dos degenerados que largaram o louvor ao Pai, das bocas do inferno que se abrem para expelir o mal ou dos desmortos que perambulam sem rumo, ansiosos por roubar a vida dos incautos.

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A Natureza do Isolamento

O próprio tempo pode fazer com que as viagens sejam desencorajadas. O clima de Belregard se comporta de maneira particular. Como os habitantes desta terra não tem um outro local para comparar, para eles tudo é normal, mas Belregard conta com bolsões climáticos distintos, com uma delimitação natural que foge um pouco da percepção dos homens. Este fenômeno faz com que castelanias vizinhas, que muitas vezes deveriam compartilhar de estações do ano num mesmo ritmo sejam completamente distintas, talvez até contraditórias. Dalanor e suas florestas podem até passar por invernos rigorosos, mas nunca poderão ser comparados aos tormentos de neve que despencam em Viha ou a umidade abafada de Varning. Como dito antes, os habitantes de Belregard não percebem estas nuances, mas elas existem e podem representar um elemento desmotivador para se cruzar as tais fronteiras climáticas. Além disso, a própria vida selvagem pode representar um problema.

Dentre os fatores de isolamento dentro da natureza podemos ressaltar:

  • Bolsões Climáticos: As mudanças de tempo podem ser abruptas durante as viagens e certamente que alguns comerciantes experientes, ou mesmo cavaleiros, sabem que elas podem ocorrer.
  • Fauna Selvagem: Em alguns lugares ocorreu um explosão populacional na vida selvagem, isso quer dizer que ficou mais comum o encontro com ursos em bosques e cavernas no caminho de viajantes, ou bandos de lobos esfomeados pelas estradas abandonadas.

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A Política do Isolamento

Entre os fatores políticos que acabam trazendo o clima de isolamento em Berelagrd podemos apontar a própria queda do Império. Nos dias de Virka, as estradas eram protegidas e estalagens de parada eram comuns a cada dia de cavalgada da capital. Mas, com o caos advindo da descentralização de poder, estas patrulhas terminaram e estas estalagens caíram, saqueadas ou tomadas por grupos criminosos. Existem ainda torres e pequenas fortalezas abandonadas, que podem servir de morada ideal para malfeitores ou mesmo para aqueles que desejam denominarem-se senhores de novas terras.

Dentre os fatores de isolamento dentro da política podemos ressaltar:

  • Criminosos: O tipo mais comum de problema que um viajante pode encontrar em Belregard. Estes bandidos podem ser grupos autônomos que preferiram levar uma vida mais fácil nas poucas rotas de comércio dentro de castelanias ou párias e exilados que não tem outra escolha para sobreviver.
  • Feudos: Como é sabido, disputas por territórios começaram a ocorrer depois da queda do império e, mesmo depois de uma geração do acontecido, muitas delas não dão sinais de acabar ou ainda mostram-se motivadas por vingança. Estas disputas podem trazer problemas a mercadores que acabam sendo pegos de surpresa pela situação inesperada.
  • Burocracia: Algumas castelanias, como Parlouma, Varning e Dalanor conseguiram se manter relativamente coesas internamente, mas isso não significa que estejam completamente livres de problemas no que diz respeito ao “ir e vir”. As burocracias de lordes locais ainda podem atrapalhar viajantes ansiosos, com exigências de pedágios, demanda de oferendas, tributos ou o simples e prático entretenimento.

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O Sobrenatural do Isolamento

As estradas de Belregard são locais perigosos, todos sabem disso. Cada morador de vilarejo ou cidade teve um parente ou amigo que partiu pelas vias abandonadas e nunca mais voltou ou, se voltou, retornou muito diferente do que era. Existe algo de podre no ar, ou na própria terra, que bagunça com as noções básicas de todos que vagam pelas estradas, trilhas e caminhos de Belregard. Alguns resistem, geralmente os que andam em bandos, tendo uns aos outros para segurá-los à realidade, já outros, como os peregrinos, dificilmente retornam a civilização com a sanidade intocada. Não só a mente se torna rota, mas também o corpo, que parece absorver as impurezas do mundo e se modificar, se corromper ou simplesmente fazer verter os pecados latentes dentro de cada um. Além disso, uma miríade de lendas e superstições propagadas pelos sacerdotes faz com que exista o medo da estrada.

Dentre os fatores de isolamento dentro do sobrenatural podemos ressaltar:

  • Degenerados: Acredita-se que o ar contaminado do mundo corrompe o homem e torna-o um degenerado. Tais degenerados tornam-se inumanos, considerados Cabeças de Lobo, podendo ser mortos sem qualquer julgamento moral e, dessa forma, não reservam qualquer cuidado aos que cruzam seu caminho.
  • Fendas do Inferno – O livro apócrifo encontrado nas catacumbas de Latza, chamado de Credo de Decebal, relata que, do momento em que o Único decidiu partir e se desfazer, ele lutou por sete dias do outro lado, no mundo espiritual, tentando enfraquecer a Sombra. Este embate reverberou no mundo físico, abrindo rachaduras na terra que podem levar até a Alcova Profana, por onde emanam chamas destruidoras.
  • Strigori: Os misteriosos andarilhos mercadores que parecem não temer os mistérios do mundo podem ser perigosos quando não lhes é dado o devido respeito. São comerciantes de almas e podem dar e tirar a fortuna dos que passam por seus caminhos.
  • Cultos: Muitos locais isolados, ou abandonados, são considerados campos de poder por determinados grupos. Sejam eles druídas que desejam captar a energia do sol através de suas pedras monolíticas misteriosamente posicionadas ou adoradores da Sombra diante de uma Fenda do Inferno, ansiosos por conseguir o favor do Inimigo através de seus sacrifícios.
  • Desmortos: Muitos campos de batalha nutriram a terra durante o períoso de caos e boa parte destes locais ficou abandonado, sem o devido cuidado de sacerdotes para purificar os corpos caídos e dar-lhes o devido funeral e dessa forma, dizem os mesmos prelados, tais soldados podem se erguer, nutridos pelo miasma do mundo, e vagar tropegamente, em busca da vida que perderam.

Agora… Falando Francamente

dore3Belregard é um cenário que preza pelo horror e verossimilhança em sua ambientação. Dessa forma, mesmo que tentemos trazer a fantasia branda, ela terá roupagens minimamente sombrias, como as oferendas de dentes infantis em árvores ocas, para agradas as fadas bondosas. Desse modo, é bem possível que muito do sobrenatural apresentado em todo o nosso material possa funcionar apenas como combustível para o clima pretendido pelo narrador. Ele não deve apresentar as fendas do inferno como portais que brotam demônios inferiores para serem pilhados por seus jogadores, ela pode ser apenas uma fenda, uma vala sem fundo perceptível, e o que traz o horror é a própria ideia de que dali sairão demônios, caso alguém do grupo que precisa acampar nas proximidades seja um pecador convicto. O sobrenatural efetivo brinca mais do que se mostra.

Caso um narrador queira realmente colocar seus demônios, monstros e mortos vivos na cola dos jogadores, que ele o faça, mas nunca de maneira leviana. O encontro com o sobrenatural é como o encontro com uma verdade que você sempre soube que existe, mas preferiu negar a vida inteira. É como confrontar o outro com a verdade sobre uma mentira que você conhecia, mas ele sempre tentou esconder. É perceber a realidade como um lago calmo e o horror como a pedra que quebra esta calmaria e reverbera em caos. A realidade, o mundano, o corriqueiro, o seguro, é uma represa que pode rachar a qualquer momento, diante da suprerioridade do desconhecido.

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