Um Recorte da Vida em Belregard

183-108q, sig. N4v (hanging man and three people in bed)

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Confira três verbetes que estarão presentes em nosso futuro lançamento.

Alimentação

O passado turbulento formou uma sociedade simplista e brutal, com a total inexistência de requinte. Os tipos de alimentos mais consumidos são carnes em geral, frutas, peixes, aves de caça e pão. Deste modo, a alimentação segue moldes simples, onde o rico terá muito e com preparo ideal, e o pobre comerá o que lhe resta da forma que for possível ser feito. Assim como amor pela comida, os povos de Belregard gostam de entregar-se à bebida, afinal, devido a má qualidade da água, beber é uma necessidade. Os pobres bebem cerveja ou cidra e os ricos deliciam-se com muitos tipos diferentes de vinhos. Em ambas as cozinhas, dos ricos e dos pobres, os temperos são populares, junto com os molhos, normalmente à base de miolo de pão, vinagre, cebola, noz, pimenta e até canela.

A alimentação dos camponeses fica concentrada nos cereais, onde os mais populares são a cevada, o centeio e o trigo, normalmente semeados e colhidos juntos para fornecer uma mistura de que é feito um pão escuro, mas também podem servir como ensopados e mingaus. Em áreas montanhosas, cultiva-se a espelta e nas áreas meridionais, diferentes especies de milho. A aveia entra principalmente na composição de sopas acompanhadas de sementes de cânhamo, legumes (favas, ervilhas, couves, lentilha, feijão, cebolas, alho, rabanete, etc) ou de castanhas. Sempre que possível, uma família terá uma pequena, mas notória criação de aves domésticas, para ovos e carnes. Queijos, fortes e suaves, com ervas também são comuns, junto dos peixes em áreas onde a pesca é possível. Frutos dos bosques também figuram com grande importância, como maçãs, pêras, amoras, ameixas, nêsperas, sorvas, nozes, avelã e etc. A carne de porco é a mais consumida entre os camponeses, normalmente morto no fim do ano, mas tem seus produtos salgados e consumidos por um longo tempo depois de armazenados.  Mas não se engane, tudo isso é tirado da terra e usado com sensatez, um ditado antigo deixa o cuidado bem claro: “O regalo de hoje é o roncar da barriga de amanhã”.

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Para a nobreza, “o primeiro dos luxos é levado à sério”. Os cereais dos camponeses são praticamente abandonados por uma variedade maior de carnes: veados, gamos, cabras, javalis, lebres, perdizes, codornas, faisões e tantos outros são populares nas mesas da nobreza, junto das enguias criadas em lagos particulares. Os banquetes são uma peça central da influência de um nobre em seu território. Realizados para promover grandes eventos como casamentos, coroações, visitantes ilustres, torneios e feriados santos, é no banquete aberto ao povo que se pode medir a popularidade de um monarca entre os seus súditos. Comer até se entupir é um costume apreciado entre os nomes, em festas eles comem tanto que irão procurar locais para vomitar, liberando espaço para poder comer mais e mais.

Em tempos mais antigos e sombrios, como resultado das revoltas da Era do Sangue o termo boccaculo nasceu. Pela escassez de comida em muitos locais comia-se tudo dos animais, da boca até o anús, sem deixar nada de fora. Nos tempos atuais, com o isolamento de certos lugares, não é difícil imaginar este cenário se repetindo.

Da necessidade nasce a inovação e muitos pratos típicos desses povos nasceram da falta de boa ou alguma comida. Desde compotas feitas com cascas e frutas, até defumação de visceras não comestíveis de outro modo. É impossivel negar que a necessidade deixa uma marca na história da culinária de Belregard muito mais profunda que o regalo. Outra curiosidade fica por conta dos cozinheiros, uma classe quase separada dos demais homens livres. Como a comida é assunto sério, bons cozinheiros podem gozar de relevantes regalias dentro da casa nobre ou em uma comunidade mais humilde.

Saúde

A vida de todos em Belregard está sujeita à doenças e enfermidades. A morte não é uma fantasia e sim uma realidade pela qual todos já passaram. É muito provável que um camponês ou nobre já tenham perdido entes queridos, principalmente crianças. Os cuidados em geral com a higiene existem, mas é verdade que boa parte da população não se preocupa tanto quanto deveria. Sabão barato, usado para roupas, costuma ser feito de sebo de carneiro, misturado a urina velha, que ajuda a tirar manchas. Nos que são usados pelas pessoas, é comum colocar rosas ou calêndulas, para atribuir também um aroma que seja agradável. Para os dentes utilizam-se palitos de avelã, alcaçus ou raiz de alteia. São hastes fibrosas que podem ser usadas para limpar a boca e os dentes. Junto com o sal e a sálvia, esfregados em um pano entre os dentes, tiram as impurezas e perfumam.

Além dos cuidados básicos, existe também a questão da beleza. Homens e mulheres procuram parecer mais atraentes para seus possíveis parceiros de romance. Enquanto a literatura cortês desenha homens e mulheres perfeitos na imaginação do camponês e do nobre, são os cuidados singelos do dia a dia que chegam para todos. Alguns truques, para estes toques, são bem conhecidos; para colorir os lábios, costuma-se utilizar açafrão; para escurecer os cílios, utiliza-se o negro da fuligem; para embranquecer os dentes se utiliza a sálvia; e para aveludar a pele, basta um regular uso de clara de ovo e vinagre.

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A principal causa subjacente das doenças se deve à falta de higiene. Os remédios são precários, sendo em sua maioria receitas caseiras que, na melhor das hipóteses, atrasam a morte por algum tempo. As crenças dos médicos sobre as causas das doenças são baseadas em antigos ensinamentos que datam da Era das Revelações. Sendo que muitos desses médicos tratam os homens e animais de maneira semelhante.

Existe uma crença comum de que as doenças se espalham pelos ares. Os camponeses temem os miasmas nocivos a sua saúde, de modo que alguns usam pequenas bolotas de ervas e especiarias como cordões, para que possam recorrer a elas em caso de encontrar uma nuvem de fumaça ou qualquer odor suspeito no ar, fechando as mãos em forma de concha, com as bolotas no centro para respirar um ar supostamente puro. Nos períodos de peste, quando cidades inteiras encontram-se contaminadas, corajosos médicos vestem-se de forma nada usual para combater epidemias, vestindo longas e pesadas casacas que cobrem todo o corpo e escondendo o rosto com máscaras que lembram a forma de um pássaro, de modo que possam colocar essências purificadoras na ponta do “bico”, preservando seu ar puro. Costumam manter distância dos seus paciêntes, atendendo-os com longas colheres.

É proibido, dentro dos ditames do Tribunal, utilizar-se de seres humanos para estudo da medicina. Muitos médicos e curandeiros recorrem a porcos para aperfeiçoar suas técnicas. Contrariando a vontade do Tribunal, monges mendicantes e estudioso uniram-se para destrinchar a vida humana, doando-se em vida para que se corpo fosse estudado após a morte, um ato condenável, praticado em segredo. O tratamento mais comum utilizado pelos médicos e apotecários é o da sangria. Acredita-se que o corpo é controlado por quatro fluídos corporais chamados humores. Eles são a Bile Preta, Bile Amarela, Fleuma e o Sangue. O tratamento com sanguessugas equilibra os humores, prevenindo doenças.

Sexo

A sexualidade é tabu na maior parte da sociedade, mas nem por isso ela deixa de ser praticada. Existem documentos de padres e sacerdotes, utilizados como um padrão de questionário para mulheres em seus momentos de confissão, que podem passar bem a ideia do quão variada é a vida sexual das pessoas simples, ou mesmo abastadas. Questões como zoofilia, masturbação com auxílio de instrumentos, incesto e adultério fazem parte do questionário de confissão. O que mostra um sinal das tais práticas. Independente do quanto os sacerdotes tentem fazer homens e mulheres sentirem-se culpados por seus desejos e impulsos, o sexo é um elemento fundamental da vida humana.

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Pelas doutrinas do Tribunal, é comum que as mulheres assumam um papel secundário na sociedade, apesar de nenhuma lei divina colocá-las desta forma. A submissão feminina não se estende ao momento íntimo dos casais. A excitação, o prazer do gozo, é tão importante para o homem quanto para a mulher. Acredita-se que um filho sadio só irá nascer quando ambos atingirem o seu ápice na relação. Isso gera um costume de taxar pessoas desequilibradas, ou mesmo com alguma deficiência, como resultado de um coito mal realizado.

No caso das famílias mais pobres, que compartilham do mesmo quarto, da própria cama, não existe a preocupação da privacidade para os momentos da relação entre os casais e em um mundo onde ter muitos filhos é sinal de boa aventurança, os casos de incesto entre irmãos e irmãs é muito mais comum do que os prelados gostariam de admitir. A homosexualidade é praticada de forma discreta. Algumas sociedades toleram a prática, mas a igreja recrimina em todo e em qualquer lugar. Existem algumas ordens cavaleirescas, como as Presas do Rubro, que aceitam a relação entre seus membros como uma evidência do estreitamento dos laços entre irmãos e irmãs na guerra.


Nos cultos antigos, voltados a Horda e aos Selvagens, o sexo era um elemento quase que central. É comum às heresias colocarem a sexualidade como tema central de seus cultos e louvores. É como se o estado pleno do prazer, do gozo sem constrangimentos, fizesse de sua ligação com o além, a Fímbria, o outro lado, mais forte. Quando dos primeiros reinados humanos, onde os cultos antigos ainda estavam entranhados no pensamento de todos, era comum o costume da primeira noite, onde a lua de mel de recém casados era passada na companhia do monarca. Isso mostra importância do sexo no selamento de acordos tão relevantes quanto o matrimônio.

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