As Mulheres em Belregard

joanofarc

Até o ano de 51 DA, o papel das mulheres na nascente sociedade de Belregard era secundário. Elas estavam fadadas a passar suas vidas zelando pela rotina diária do cuidar da casa, do marido e da prole. A religiosidade, também ainda muito nova para aqueles recém saídos de Belghor, pregava a submissão das mulheres como um preceito claro em seus ditames. Morovan, o Velho, primeiro profeta do Criador alertava sobre os perigos contidos na mulher, que o homem sábio manteria a sua como posse, não permitindo grandes liberdades, para que fosse uma cumpridora dos anseios de seu marido. Ele é muito claro nos primeiros versículos, quando um de seus seguidores pergunta sobre Lohanna, a jovem que acompanhava, e cuidava, do velho sábio:

“A mulher envenena. Não sabe do mal que tem dentro de si, por isso sangra. Nem todo rubro poderia limpa-la. Mantêm firme a mão em sua conduta e não cai no encanto, não vacila no feitiço inocente”. – Das palavras de Morovan, o Velho.

Essa situação demorou muito a mudar, sendo reconhecido o papel de igualdade das mulheres apenas em 51 DA, quando Virka foi atacada por uma força conjunta de Selvagens. De maneira covarde, as hordas atacaram uma torre, por trás do exército, onde estavam escondidas as mulheres e crianças. Encurralados, não tiveram outra escolha. Sob a liderança de Angelina, uma simples moradora da primeira cidade, o Levante dos Indefesos teve início. Armando-se com o que ficou na reserva dos soldados, rechaçaram as forças Selvagens, deixando poucos sobreviventes.

Naquela torre não estavam apenas mulheres e crianças, mas também o bem valioso do rei, seu filho, aquele que viria ser Bövrar II. O jovem também lutou ao lado das mulheres e foi certamente esta experiência que o fez decretar, assim que coroado, a igualdade entre os gêneros, permitindo que mulheres também adentrassem ordens de cavalaria e fossem mais ativas em hekklesias religiosas, tornando-se até mesmo Oradoras. Com este édito também passou a se considerar os 14 anos como maioridade.

Daquele ponto em diante, a figura de Angelina sempre foi reverenciada e respeitada. Enquanto viva, serviu pessoalmente como Escudo da Casa de Bövrar II, mas voltou-se contra o rei alguns anos depois. Os motivos que levaram a deserção de Angelina são misteriosos, mas ela nunca foi acusada como traidora. A atitude serve para mostrar a sabedoria da guerreira, que percebeu a loucura cada vez mais latente no monarca. A morte da santa é envolta em mistério, mas muitos creem que ela ascendeu aos céus. Sua canonização ocorreu apenas em 991 DA, após a dos três Puros.

Essa igualdade de gênero trazida por Angelina permitiu que as mulheres assumissem lugares de destaque da sociedade, colocando-as em todas as suas camadas, da vassala presa à terra até a senhora de um domínio real. Antes do édito (que nunca foi contestado, a despeito de ter sido decretado por Bövrar II), as mulheres estavam sempre em uma desvantagem política com relação aos casamentos, sendo utilizadas como uma moeda de troca por seus familiares; não que esta lógica tenha sido abandonada, mas hoje o cônjuge de menor influência é que se submete ao de maior, independente do sexo.

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Apesar desta aceitação, a igreja, o Tribunal, nunca aceitou plenamente a participação das mulheres dentro de seus círculos mais internos. Na época das hekklesias, as mulheres podiam alcançar o cargo de Oradoras e, eventualmente fundar seu próprio secto. A história é pontuada de algumas que marcaram momentos e locais, como a hekklesia de Doráh, formada pela Oradora Natalia que, próxima dos parlos, iniciou a conversão para o criadorismo; apesar das relações tensas entre as etnias naquele começo de contato, a hekklesia de Doráh (palavra de origem no parlo arcaico que significa “coração”) foi grande responsável na educação dos jovens para a aceitação da fé. O cargo máximo das igreja, de Eleito, nunca foi assumido por uma mulher. É sabido que são os Oradores e Cardeais que escolhem o Eleito, quando o atual morre, e esse controle ainda é exercido por muitos homens. Desse modo, é muito muito comum ver mulheres como freiras em irmandades isoladas, fechadas, como a Congregação de Frika, em Viha, com sua devoção exacerbada e mortificação em rituação de flagelação.

Em 1013 DA, a Oradora Telma por pouco não tornou-se a primeira Eleita. Os Cardeais e Oradores presentes na votação alegaram que Telma não poderia assumir, já que tinha um filho, seu amor seria dividido entre a prole e o Criador. A atitude gerou revolta em Virka, mas o Tribunal não recuou, aumentando a pressão contra a nomeação da Oradora que, por sua vez, angariava fiéis entre os humildes. Não é comum que camponeses, servos, ergam armas para lutar por algo que seu senhor não mandou diretamente e essa mobilização chama a atenção. Vlakin I, governante do período, não podia perder apoio do Tribunal e condenou Telma por traição e heresia. A Oradora foi queimada em praça pública. O filho, Túlio, tornou-se Orador e lutou a vida toda para canonizar a mãe, o que foi feito em 1053 DA.

A igualdade dos sexos, dos gêneros, em Belregard permite que mulheres e homens atuem em pé de igualdade na sociedade. Permitindo o surgimento de rainhas poderosas, sacerdotisas inspiradores, todas com as mesmas capacidades para o bem e para o mal de todo ser humano. A resistência da igreja deve ser vista como uma provocação, como um espinho incômodo que precisa ser removido. Bövrar II, louco ou não, sabia muito bem do valor das mulheres e de sua ligação quase que natural com o outro lado, com a fímbria, a película que separa este mundo do mundo dos espíritos, dos mortos, um sexto sentido poderoso. Talvez os Oradores tenham medo do poder que uma Eleita poderia alcançar.

Verdade dos Livros, Mentira dos Homens

Alguns estudiosos da vulgata, e mesmo de textos mais antigos do criadorismo, percebem sutis alterações na medida em que o material é copiado e recopiado. Uma dupla de estudiosos do mosteiro de São Paolo, em Birman, está levantando questões perigosas. Juno começou a questionar certas mudanças de um texto pra outro, apontando uma variação no sexo de grandes pensadores do passado, logo ela chamou a atenção de Octávio para o mesmo e ambos debruçaram sobre os mais antigos tomos. Eles suspeitam de uma forte campanha do Tribunal para o controle de sua informação e os questionamentos chegam ao ponto de cogitar uma verdade que abalaria a resistência da igreja para com as mulheres, a ideia de que um dos Puros, possivelmente Alec, era mulher! O Criador ter escolhido uma companheira Pura é absolutamente plausível, mas abalaria o criadorismo e sua resistência na aceitação das mesmas.

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Arte de Gustave Doré. Aqui representando Angelina.

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