Como Será Organizado o Livro?

13925028_1078456265567523_3876418658528947792_n

Saudações, Cães de Belregard!

Desde que divulgamos a prévia de nossa diagramação (se você AINDA não viu, clique aqui), recebemos um feedback muito bacana de nossos amigos e daqueles que acompanham o desenvolvimento desse cenário. Além dos comentários, críticas e sugestões, alguns mostraram-se curiosos quanto a organização do livro em si, seus capítulos e tópicos. O que faz parte do conteúdo, propriamente dito. Este post visa elucidar exatamente estas questões, em um aquecimento para o financiamento vindouro.

Antes de mais nada, é preciso lembrar que Belregard será escrito como um material “in game”, de modo que os textos são apresentados do ponto de vista de personagens dentro desse mundo ficcional. Isso ocorre pra tornar a experiência mais imersiva, além de ser um eterno lembrete de que podem existir mentiras dentro daquele tratado, exageros, omissões, etc. O narrador só precisa se preocupar com o que lhe for conveniente, podendo dar o seu próprio toque de verdade nesse mundo.

Belregard está dividido em 4 livros, cada um deles com sua própria história e motivação. Eles nunca seriam encontrados juntos dentro do mundo do jogo, mas essa é uma comodidade que o “mundo real” lhes oferece! Dessa forma, cada um destes capítulos tem um contexto interno, que será explicado abaixo.

writing

Livro Um: Testtimus Homini

Este livro foi organizado pelo abade Tullus, que supervisionou o trabalho de um jovem copista chamado Maltus. Além disso, este copista possui um amigo muito próximo, identificado apenas como “P”, com quem parece nutrir um afeto muito forte. O livro foi organizado por ordem de um nobre de Parlouma, Augusto de Borgosa, que desejava afinar seu próprio saber sobre a história dos homens em louvor ao Criador. Dessa forma, o trabalho de Maltus foi organizar conhecimentos antigos, como “Uma Breve História dos Homens”, escrito por Haskel no século X, onde traça as linhas da história de Belregard desde o enaltecimento por Deus no combate contra os bestiais até os dias mais recentes, conta ainda sobre os costumes mais comuns entre os povos. Em seguida se utiliza da obra de Técio de Villa, um estudante da Academia do Saber de Varning, contemporâneo do século XIV, que lançou verbetes sobre a vida em Belregard, indo dos sacramentos religiosos até questões corriqueiras como alimentação, sexo e comércio. Através das anotações feitas ao longo deste livro, é possível perceber a relação entre Maltus e P, além da linha dura, pulso firme, de Tullus.

books

Livro Dois: Tractatus Terrae

O Tratado da Terra original está perdido. Tratava-se de um livro contendo os limites de reinos, condados, ducados, de todas as posses de casas nobres de Belregard. Estava em posse do imperador quando Virka caiu. Boa parte dos limites se mantiveram, com um ou outro rompante de conquista surgindo em castelanias mais caóticas. O Tribunal do Supremo Ofício deseja traçar novamente estas linhas, estes limites, descobrir como o mundo se encontra nesses cinquenta anos depois da queda. Esse foi trabalho do Enviado Minus, que através de agentes coletou informações sobre a política, cultura e economia das castelanias de Belregard. Tirou dos textos impressões muito pessoas de seus agentes e compilou para o conhecimento do Eleito, o líder máximo da fé. Os comentários no livro dois ficam por conta de oradores, um cargo abaixo do Eleito, que certamente leram o livro antes do próprio. É aqui que são tratadas as regiões de Belregard, cidades, formações de destaque, além de pitacos e sugestões dos rumos que estas áreas estão pra tomar nos próximos anos. Mostrando o mundo dinâmico.

old_books

Livro Três: Mysterarcanum Mundi

Este livro é o mais obscuro, trata-se do estudo feito por um grupo secreto de Belghor, o Hakam. Aqui são discutidas verdades sobre os Puros que são a base do Tribunal do Supremo Ofício, mostrando ensinamentos destes homens santos que seriam evitados, até mesmo negados, pela igreja. É um livro que fala sobre um seguimento mais puro da própria fé no Criador. É onde tratamos dos Arautos como homens e mulheres despertos, capazes de enxergar o mundo como ele verdadeiramente é, uma terra envolvida na Sombra, um mundo derrotado. Além disso, o último capítulo deste livro trata sobre as páginas negras de segredos reais, é um momento onde lendas e rumores são lançados para uso do narrador. São ferramentas, plots, tramas que ele pode experimentar em Belregard. É onde se conhece a Sombra em sua essência, os cultos e práticas pecaminosas.

tumblr_ltp7mqqd3e1r5pmqlo1_500

Livro Quatro: Sacrum Codex

Por fim, no último livro, temos as regras. É nesse livro que saímos do on para o off e falamos diretamente contigo, leitor. É onde a adaptação das regras para o Crônicas ocorrerá, com novidades, modificações, para adequar melhor ao cenário, além do resumo que torna possível jogar. Mas a cereja do bolo são as dicas. Percebemos, ao longo desses anos, que muitas vezes é difícil para alguém perceber ou se encontrar em Belregard. O mundo é grande e constantemente se questiona, “mas como eu jogo? Sobre o que são as histórias?” e é exatamente pra isso que esse capítulo existe. Bebemos de nossas próprias influências em outros jogos pra ajudar narradores a encontrar seu próprio caminho dentro de Belregard. Além, é claro, de falar bastante sobre o horror, sobre o terror que são parte fundamental desse cenário. Como utilizar, como envolver seus jogadores nesse clima mais cru e pé no chão.

É basicamente isso, existe uma divisão interna dos livros, seus capítulos dividindo esse conhecimento, mas em suma, é disso que se trata Belregard.

Aguardem novidades!

C7

Anúncios

Arquétipos: Trovador(a) Dalano(a)

Trovador DalanoEtnia: Dalano

Castelania: Qualquer uma

Posição Social: Artista (Reputação1); Vassalo (Reputação 2)

Ocupação: Bardo

O trovador dalano é um símbolo do povo de Dalanor. Ele não precisa ter nascido na terra de seus antepassados para herdar o legado do mesmo. Todo dalano diz que a música, a arte, a paixão corre em suas veias e que, eventualmente, você será chamado por ela em algum momento da vida. A ligação dos dalanos com a música vem de suas antigas histórias, onde uma corte de músicos e cantores, poetas e artistas tentou entreter o último grande rei, Dálan, enquanto este sucumbia de tristeza, sendo consumido pela loucura causada por Renart, o Raposo. Tangrare, rica cidade dalana da corte do Corvo, possui sua Orquestra Sinfônica e Bravas Escolas Musicais, onde são formados os maiores músicos de Belregard.

O amor cortês, a síntese da sonhada relação entre vassalo e suserano, tem sua maior representação entre os dalanos, que possuem uma infinidade de trovas sobre a relação entre cavaleiros humildes e damas da corte, ou entre serviçais simplórias e o jovem lorde inalcançável. O amor cortês vai contra os acordos de casamento e raramente se torna real, mas habita o imaginário dos povos de Belregard. Seja ele formado nas Bravas Escolas Musicais ou um autodidata que clamou pelo que há no sangue para dedilhar o violão, os trovadores dalanos são bem recebidos, seja para cantar sobre o amor, sobre a amizade ou para humilhar o regente bem diante de sua corte, sem que o mesmo sequer perceba.

Arquétipos: Legislador(a)

LegisladorEtnia: Belghos

Castelania: Qualquer uma

Posição Social: Sacerdote (Reputação 3)

Ocupação: Clérigo

Os Legisladores não são pessoas que atuam na lei local, pelo menos não na lei terrena, dos homens. Os Legisladores são uma reminiscência de uma velha tradição do povo belgho. Quem observa as grandes construções do Tribunal do Supremo Ofício não é capaz de imaginar que o povo culpado por espalhar a palavra do Criador é, na verdade, iconoclasta. Nos tempos das hekklesias antigas, quando não havia uma centralização oficial da igreja, os cultos ainda misturavam muito do que hoje é encarado como herético, como a própria comunhão com a natureza. Os Legisladores eram os grandes Oradores deste período, guiando suas hekklesias com pulso firme no caminho que acreditavam ser o correto. Hoje em dia, alguns pequenos vilarejos interioranos, onde a presença do Tribunal é sentida fracamente, são os Legisladores que cuidam da manutenção diária da fé. São homens e mulheres que muitas vezes não são considerados mais que padres comuns, na estrutura interna do Trinunal, mas que são vistos como Oradores pelos mais humildes.

É comum que Legisladores mais velhos assumam o papel de tutores de um pequeno grupo de estudiosos jovens, de onde um desses o substituirá no momento da morte. Estes jovens são estimulados a viajar, a conhecer. Os Legisladores zombam dos monges trancados em suas celas, alegando que estes nunca poderão dizer-se verdadeiros na fé, já que nunca a colocam em prática. Por falar em práticas, alguns dos costumes de Legisladores pode chocar os sacerdotes mais desavisados, já que seus cultos de antigas inspirações realizam até mesmo o sacrifício animal.

Arquétipos: Hussardos

HussardosEtnias: Qualquer uma

Castelania: Principados de Rastov

Posição Social: Vassalo (Reputação 2); Guerreiro (Reputação 2).

Ocupações: Assassino, Caçador, Campeão, Cavaleiro, Ferreiro, Ladrão, Ranger e Soldado.

Os Hussardos são os cavaleiros mercantes de Rastov . A situação da castelania é completamente particular e seus cavaleiros sentem esse reflexo. Rastov experimenta uma liberdade que não é caótica. Os lordes, os príncipes de Rastov, votam-se ao seu povo apenas em momentos de crise, deixando-os seguirem suas vidas como bem entendem em boa parte do tempo. O comércio com metais preciosos em Rastov é praticamente inexistente e muitos  nunca viram moedas, que não são cunhadas em cidade alguma. Isso forma um grupo de pessoas que não sabe lidar com o comércio, que não seja na base da troca ou da força. Quando estes grupos são formados, geralmente por vassalos pouco treinados, e mandados para o sul em busca de alguma mercadoria em particular, o resultado pode ser desastroso. Sem saber lidar com as nuances comerciais, os Hussardos acabam vestindo o capuz de saqueadores e por muitas vezes as castelanias de Viha e Dalanor já sofreram nas mãos destes homens e mulheres.

Aos Hussardos são dadas missões simples, eles devem obter algo e nem sempre estes mandantes enviam outros produtos para serem trocados. Costumam ser despreparados, mas para eles é uma missão sagrada, assim sendo ela será realizada, custe o que custar, leve o tempo que levar.

Arquétipos: Cães de Belghor

Cão de BelghorEtnia: Belghos

Castelania: Belghor

Posição Social: Vassalo (Reputação 2); Mercador (Reputação 2); Guerreiro (Reputação 2).

Ocupação: Aprendiz, Caçador, Cavaleiro, Comerciante e Soldado.

Pode-se dizer que os Cães de Belghor representam uma faceta do grupo dos Cavaleiros Mercantes, mas como as casas mercantes de Belghor não tem a mesma autonomia vista em outras partes de Belregard, como Varning, estes soldados ainda possuem um apoio oficial da nobreza, não dependendo apenas de ricos comerciantes. Internamente, por ser bem conectada, Belghor não faz uso dos cavaleiros, mas os Cães de Belghor atuam especialmente em Orlit, a cidade mais ao norte do território.

O duque Miron, que governa a região, é extremamente apegado aos costumes antigos e religiosos, além de ser reconhecidamente um governante cruel e de pulso firme. Acreditando que o mundo ao seu redor é corrupto e que apenas Belghor possui ainda uma pureza, deixou ao encargo da família Macer escolher os homens e mulheres que preenchem as filas dos Cães. A bem da verdade, trata-se de um grupo pequeno, existimo num máximo de cinco células ao mesmo tempo, cada uma com três a cinco membros. Estes são treinados e podem ser considerados cavaleiros santos e humildes. Os Cães passam os esteniantes rituais de purificação quando saem e retornam de Belghor, geralmente protegendo caravanas até Braden, Birman, Vlakir e mesmo Parlouma.

O nome da ordem deriva-se da ideia antiga de que um cão guiou Morovan para fora de Belghor, mostrando para ele o mundo corrupto que o Criador desejava que os homens limpassem. Com essa ideia em mente, é muito fácil entender que os Cães são extremamente orgulhosos de sua posição e que as hostilidades entre eles e outros grupos das castelanias próximas sejam mais comuns do que seria aconselhável.

Arquétipos: Cavaleiro(a) Mercante de Varning

Cavaleiro Mercante de VarningEtnias: Qualquer uma.

Castelania: Varning

Posição Social: Vassalo (Reputação 2)

Ocupação: Cavaleiro Mercante

Os cavaleiros mercantes possuem a sua representatividade máxima em Varning, terra onde acredita-se ter nascido o homem que viria a se tornar São Genaro, o patrono destes intrépidos exploradores. Devido ao espírito ainda vivo do comércio na castelania é muito natural que lá seja o berço desta ordem de homens e mulheres que prestam seus serviços a uma casa mercante, geralmente ligada a famílias poderosas, para fazer valer contratos em locais, agora, com suas estradas abandonadas e perigosas. O cavaleiro mercante pode vir de qualquer estrato da sociedade, mas é muito comum que sejam pessoas humildes, sem grandes posses que vendem sua servidão nas cidades para senhores que podem lhes dar pouco (quando muito uma mula e uma arma singela). No entanto, já existiram filhos da nobreza que estavam longe da linha de sucessão e acabaram servindo como cavaleiros para casas poderosas, tendo seus equipamentos financiados de forma mais satisfatória, fato é que a partir deste momento, tornam-se vassalos da casa. Pode parecer um exagero, um filho da nobreza abdicar de seu título, mas um certo glamour acompanha os cavaleiros mercantes, especialmente quando alcançam comunidades isoladas, sendo, por muitas vezes, o único contato que tais povoados tem com o mundo exterior.

Algumas casas mercantes famosas da região de Varning incluem:

Casa Graziano – Comércio de pedras preciosas e matéria prima para a metalurgia, liderada por Ítalo Graziano, um homem de pulso firme, mas justo. Domina boa parte da cidade de Rivienza.

Casa Genaro – Alega que seus líderes descendem do santo original que inspirou os cavaleiros, focados num comércio de pescado e utensílios variados para a atividade. Forte presença em Tiepole.

Casa Gecco – Por estar centrada em Tragliamento, não se foca na produção de algo em específico, mas sim no transporte das mercadorias que escoam de outros cantos da castelania. Normalmente envolvidos em atritos severos com a Camorra de Parloula, tão próxima em Aquirrare.

Arquétipos de Personagem: Por que e pra quê?

medieval-clothes-5Saudações, cães!

Por mais de uma vez ouvimos, de pessoas que testaram o Belregard com seus grupos, que o jogo pode ser um pouco difícil de ser apresentado por conta de suas possibilidades muitas. Compreendemos o valor dessa crítica e dizemos que, com um pouquinho de calma, você consegue aparar tudo que pode (parecer) estar sobrando. O mais lógico e óbvio passo para que você, narrador, consiga limar um pouco estas arestas é perceber que nosso sistema, o Crônicas, só tem a te ajudar com isso! No Crônicas é aconselhado que o narrador crie a Ficha da Crônica antes do jogo, onde, em linhas gerais, ele vai prever quantas sessões em média seu jogo vai ter, qual o tema central e, especialmente, que tipos de personagens os jogadores poderão construir, para entrarem de cabeça nessa experiência sem grande dificuldade. É claro que um narrador pode fazer o caminho inverso a isso, criando personagens primeiro e então bolando a ficha da crônica quase que em conjunto, muita gente faz assim.

Se você conhece ainda muito pouco do Crônicas e acha confusa essa coisa das fichas, da uma ouvida nos podcasts do pessoal do Perdidos no Play. Eles fizeram programas especiais dedicados ao Crônicas para facilitar o entendimento:

PnP 34: Conhecendo o Crônicas RPG

PnP 38: Crônicas RPG – A Ficha de Crônica

Com esse cuidado básico, o narrador já consegue se concentrar no que importa. Um exemplo forte disso são os nossos cenários utilizados em medieval-clothes-3encontros (que logo terão versões atualizadas em PDF, aguardem!). Desde o primeiro, o Evangelho do Cão, os jogos foram direcionados (com personagens que trabalhavam para a igreja no caso supracitado). É importante o narrador saber que tipo de história ele vai contar, que tipo de contexto ele vai abordar. Belregard lhe dá inúmeras oportunidades diferentes para explorar elementos clássicos da fantasia medieval até questões mais melancólicas, como a luta perdida dos Arautos.

Uma das coisas mais fantásticas do sistema Crônicas é a criação livre de personagens. Você pode escolher uma ocupação, mas ela serve apenas como GUIA, como um direcionamento, uma sugestão de como encaixar seu personagens no mundo e isso é ótimo, facilita o trabalho do narrador, que pode escolher que ocupações, níveis de status e mesmo riqueza, se encaixam em sua narrativa. Cientes disso, decidimos criar alguns arquétipos de personagens para Belregard.

Estes arquétipos irão funcionar como uma mistura de etnias+ocupações+localidade (não necessariamente nessa ordem), ajudando a pincelar com cores o mundo cinzento de Belregard. Fique de olho que logo começaremos a liberar os arquétipos, que serão todos linkados abaixo neste post. Para ilustrar os arquétipos, utilizaremos as artes vitrais do Crônicas, feitas pelas artistas Camilla Guedes e Kimie Noda.

Cavaleiro(a) Mercante

Cães de Belghor

Hussardos

Legislador(a)

Trovador(a) Dalano(a)

As Mulheres em Belregard

joanofarc

Até o ano de 51 DA, o papel das mulheres na nascente sociedade de Belregard era secundário. Elas estavam fadadas a passar suas vidas zelando pela rotina diária do cuidar da casa, do marido e da prole. A religiosidade, também ainda muito nova para aqueles recém saídos de Belghor, pregava a submissão das mulheres como um preceito claro em seus ditames. Morovan, o Velho, primeiro profeta do Criador alertava sobre os perigos contidos na mulher, que o homem sábio manteria a sua como posse, não permitindo grandes liberdades, para que fosse uma cumpridora dos anseios de seu marido. Ele é muito claro nos primeiros versículos, quando um de seus seguidores pergunta sobre Lohanna, a jovem que acompanhava, e cuidava, do velho sábio:

“A mulher envenena. Não sabe do mal que tem dentro de si, por isso sangra. Nem todo rubro poderia limpa-la. Mantêm firme a mão em sua conduta e não cai no encanto, não vacila no feitiço inocente”. – Das palavras de Morovan, o Velho.

Essa situação demorou muito a mudar, sendo reconhecido o papel de igualdade das mulheres apenas em 51 DA, quando Virka foi atacada por uma força conjunta de Selvagens. De maneira covarde, as hordas atacaram uma torre, por trás do exército, onde estavam escondidas as mulheres e crianças. Encurralados, não tiveram outra escolha. Sob a liderança de Angelina, uma simples moradora da primeira cidade, o Levante dos Indefesos teve início. Armando-se com o que ficou na reserva dos soldados, rechaçaram as forças Selvagens, deixando poucos sobreviventes.

Naquela torre não estavam apenas mulheres e crianças, mas também o bem valioso do rei, seu filho, aquele que viria ser Bövrar II. O jovem também lutou ao lado das mulheres e foi certamente esta experiência que o fez decretar, assim que coroado, a igualdade entre os gêneros, permitindo que mulheres também adentrassem ordens de cavalaria e fossem mais ativas em hekklesias religiosas, tornando-se até mesmo Oradoras. Com este édito também passou a se considerar os 14 anos como maioridade.

Daquele ponto em diante, a figura de Angelina sempre foi reverenciada e respeitada. Enquanto viva, serviu pessoalmente como Escudo da Casa de Bövrar II, mas voltou-se contra o rei alguns anos depois. Os motivos que levaram a deserção de Angelina são misteriosos, mas ela nunca foi acusada como traidora. A atitude serve para mostrar a sabedoria da guerreira, que percebeu a loucura cada vez mais latente no monarca. A morte da santa é envolta em mistério, mas muitos creem que ela ascendeu aos céus. Sua canonização ocorreu apenas em 991 DA, após a dos três Puros.

Essa igualdade de gênero trazida por Angelina permitiu que as mulheres assumissem lugares de destaque da sociedade, colocando-as em todas as suas camadas, da vassala presa à terra até a senhora de um domínio real. Antes do édito (que nunca foi contestado, a despeito de ter sido decretado por Bövrar II), as mulheres estavam sempre em uma desvantagem política com relação aos casamentos, sendo utilizadas como uma moeda de troca por seus familiares; não que esta lógica tenha sido abandonada, mas hoje o cônjuge de menor influência é que se submete ao de maior, independente do sexo.

Millais_-_Das_Tal_der_Stille

Apesar desta aceitação, a igreja, o Tribunal, nunca aceitou plenamente a participação das mulheres dentro de seus círculos mais internos. Na época das hekklesias, as mulheres podiam alcançar o cargo de Oradoras e, eventualmente fundar seu próprio secto. A história é pontuada de algumas que marcaram momentos e locais, como a hekklesia de Doráh, formada pela Oradora Natalia que, próxima dos parlos, iniciou a conversão para o criadorismo; apesar das relações tensas entre as etnias naquele começo de contato, a hekklesia de Doráh (palavra de origem no parlo arcaico que significa “coração”) foi grande responsável na educação dos jovens para a aceitação da fé. O cargo máximo das igreja, de Eleito, nunca foi assumido por uma mulher. É sabido que são os Oradores e Cardeais que escolhem o Eleito, quando o atual morre, e esse controle ainda é exercido por muitos homens. Desse modo, é muito muito comum ver mulheres como freiras em irmandades isoladas, fechadas, como a Congregação de Frika, em Viha, com sua devoção exacerbada e mortificação em rituação de flagelação.

Em 1013 DA, a Oradora Telma por pouco não tornou-se a primeira Eleita. Os Cardeais e Oradores presentes na votação alegaram que Telma não poderia assumir, já que tinha um filho, seu amor seria dividido entre a prole e o Criador. A atitude gerou revolta em Virka, mas o Tribunal não recuou, aumentando a pressão contra a nomeação da Oradora que, por sua vez, angariava fiéis entre os humildes. Não é comum que camponeses, servos, ergam armas para lutar por algo que seu senhor não mandou diretamente e essa mobilização chama a atenção. Vlakin I, governante do período, não podia perder apoio do Tribunal e condenou Telma por traição e heresia. A Oradora foi queimada em praça pública. O filho, Túlio, tornou-se Orador e lutou a vida toda para canonizar a mãe, o que foi feito em 1053 DA.

A igualdade dos sexos, dos gêneros, em Belregard permite que mulheres e homens atuem em pé de igualdade na sociedade. Permitindo o surgimento de rainhas poderosas, sacerdotisas inspiradores, todas com as mesmas capacidades para o bem e para o mal de todo ser humano. A resistência da igreja deve ser vista como uma provocação, como um espinho incômodo que precisa ser removido. Bövrar II, louco ou não, sabia muito bem do valor das mulheres e de sua ligação quase que natural com o outro lado, com a fímbria, a película que separa este mundo do mundo dos espíritos, dos mortos, um sexto sentido poderoso. Talvez os Oradores tenham medo do poder que uma Eleita poderia alcançar.

Verdade dos Livros, Mentira dos Homens

Alguns estudiosos da vulgata, e mesmo de textos mais antigos do criadorismo, percebem sutis alterações na medida em que o material é copiado e recopiado. Uma dupla de estudiosos do mosteiro de São Paolo, em Birman, está levantando questões perigosas. Juno começou a questionar certas mudanças de um texto pra outro, apontando uma variação no sexo de grandes pensadores do passado, logo ela chamou a atenção de Octávio para o mesmo e ambos debruçaram sobre os mais antigos tomos. Eles suspeitam de uma forte campanha do Tribunal para o controle de sua informação e os questionamentos chegam ao ponto de cogitar uma verdade que abalaria a resistência da igreja para com as mulheres, a ideia de que um dos Puros, possivelmente Alec, era mulher! O Criador ter escolhido uma companheira Pura é absolutamente plausível, mas abalaria o criadorismo e sua resistência na aceitação das mesmas.

a-heroine-florine-of-burgundy-1877

Arte de Gustave Doré. Aqui representando Angelina.

Um Recorte da Vida em Belregard

183-108q, sig. N4v (hanging man and three people in bed)

183-108q, sig. N4v (hanging man and three people in bed)

 

Confira três verbetes que estarão presentes em nosso futuro lançamento.

Alimentação

O passado turbulento formou uma sociedade simplista e brutal, com a total inexistência de requinte. Os tipos de alimentos mais consumidos são carnes em geral, frutas, peixes, aves de caça e pão. Deste modo, a alimentação segue moldes simples, onde o rico terá muito e com preparo ideal, e o pobre comerá o que lhe resta da forma que for possível ser feito. Assim como amor pela comida, os povos de Belregard gostam de entregar-se à bebida, afinal, devido a má qualidade da água, beber é uma necessidade. Os pobres bebem cerveja ou cidra e os ricos deliciam-se com muitos tipos diferentes de vinhos. Em ambas as cozinhas, dos ricos e dos pobres, os temperos são populares, junto com os molhos, normalmente à base de miolo de pão, vinagre, cebola, noz, pimenta e até canela.

A alimentação dos camponeses fica concentrada nos cereais, onde os mais populares são a cevada, o centeio e o trigo, normalmente semeados e colhidos juntos para fornecer uma mistura de que é feito um pão escuro, mas também podem servir como ensopados e mingaus. Em áreas montanhosas, cultiva-se a espelta e nas áreas meridionais, diferentes especies de milho. A aveia entra principalmente na composição de sopas acompanhadas de sementes de cânhamo, legumes (favas, ervilhas, couves, lentilha, feijão, cebolas, alho, rabanete, etc) ou de castanhas. Sempre que possível, uma família terá uma pequena, mas notória criação de aves domésticas, para ovos e carnes. Queijos, fortes e suaves, com ervas também são comuns, junto dos peixes em áreas onde a pesca é possível. Frutos dos bosques também figuram com grande importância, como maçãs, pêras, amoras, ameixas, nêsperas, sorvas, nozes, avelã e etc. A carne de porco é a mais consumida entre os camponeses, normalmente morto no fim do ano, mas tem seus produtos salgados e consumidos por um longo tempo depois de armazenados.  Mas não se engane, tudo isso é tirado da terra e usado com sensatez, um ditado antigo deixa o cuidado bem claro: “O regalo de hoje é o roncar da barriga de amanhã”.

medieval_vomit

Para a nobreza, “o primeiro dos luxos é levado à sério”. Os cereais dos camponeses são praticamente abandonados por uma variedade maior de carnes: veados, gamos, cabras, javalis, lebres, perdizes, codornas, faisões e tantos outros são populares nas mesas da nobreza, junto das enguias criadas em lagos particulares. Os banquetes são uma peça central da influência de um nobre em seu território. Realizados para promover grandes eventos como casamentos, coroações, visitantes ilustres, torneios e feriados santos, é no banquete aberto ao povo que se pode medir a popularidade de um monarca entre os seus súditos. Comer até se entupir é um costume apreciado entre os nomes, em festas eles comem tanto que irão procurar locais para vomitar, liberando espaço para poder comer mais e mais.

Em tempos mais antigos e sombrios, como resultado das revoltas da Era do Sangue o termo boccaculo nasceu. Pela escassez de comida em muitos locais comia-se tudo dos animais, da boca até o anús, sem deixar nada de fora. Nos tempos atuais, com o isolamento de certos lugares, não é difícil imaginar este cenário se repetindo.

Da necessidade nasce a inovação e muitos pratos típicos desses povos nasceram da falta de boa ou alguma comida. Desde compotas feitas com cascas e frutas, até defumação de visceras não comestíveis de outro modo. É impossivel negar que a necessidade deixa uma marca na história da culinária de Belregard muito mais profunda que o regalo. Outra curiosidade fica por conta dos cozinheiros, uma classe quase separada dos demais homens livres. Como a comida é assunto sério, bons cozinheiros podem gozar de relevantes regalias dentro da casa nobre ou em uma comunidade mais humilde.

Saúde

A vida de todos em Belregard está sujeita à doenças e enfermidades. A morte não é uma fantasia e sim uma realidade pela qual todos já passaram. É muito provável que um camponês ou nobre já tenham perdido entes queridos, principalmente crianças. Os cuidados em geral com a higiene existem, mas é verdade que boa parte da população não se preocupa tanto quanto deveria. Sabão barato, usado para roupas, costuma ser feito de sebo de carneiro, misturado a urina velha, que ajuda a tirar manchas. Nos que são usados pelas pessoas, é comum colocar rosas ou calêndulas, para atribuir também um aroma que seja agradável. Para os dentes utilizam-se palitos de avelã, alcaçus ou raiz de alteia. São hastes fibrosas que podem ser usadas para limpar a boca e os dentes. Junto com o sal e a sálvia, esfregados em um pano entre os dentes, tiram as impurezas e perfumam.

Além dos cuidados básicos, existe também a questão da beleza. Homens e mulheres procuram parecer mais atraentes para seus possíveis parceiros de romance. Enquanto a literatura cortês desenha homens e mulheres perfeitos na imaginação do camponês e do nobre, são os cuidados singelos do dia a dia que chegam para todos. Alguns truques, para estes toques, são bem conhecidos; para colorir os lábios, costuma-se utilizar açafrão; para escurecer os cílios, utiliza-se o negro da fuligem; para embranquecer os dentes se utiliza a sálvia; e para aveludar a pele, basta um regular uso de clara de ovo e vinagre.

Medieval_Anatomy_1_0

A principal causa subjacente das doenças se deve à falta de higiene. Os remédios são precários, sendo em sua maioria receitas caseiras que, na melhor das hipóteses, atrasam a morte por algum tempo. As crenças dos médicos sobre as causas das doenças são baseadas em antigos ensinamentos que datam da Era das Revelações. Sendo que muitos desses médicos tratam os homens e animais de maneira semelhante.

Existe uma crença comum de que as doenças se espalham pelos ares. Os camponeses temem os miasmas nocivos a sua saúde, de modo que alguns usam pequenas bolotas de ervas e especiarias como cordões, para que possam recorrer a elas em caso de encontrar uma nuvem de fumaça ou qualquer odor suspeito no ar, fechando as mãos em forma de concha, com as bolotas no centro para respirar um ar supostamente puro. Nos períodos de peste, quando cidades inteiras encontram-se contaminadas, corajosos médicos vestem-se de forma nada usual para combater epidemias, vestindo longas e pesadas casacas que cobrem todo o corpo e escondendo o rosto com máscaras que lembram a forma de um pássaro, de modo que possam colocar essências purificadoras na ponta do “bico”, preservando seu ar puro. Costumam manter distância dos seus paciêntes, atendendo-os com longas colheres.

É proibido, dentro dos ditames do Tribunal, utilizar-se de seres humanos para estudo da medicina. Muitos médicos e curandeiros recorrem a porcos para aperfeiçoar suas técnicas. Contrariando a vontade do Tribunal, monges mendicantes e estudioso uniram-se para destrinchar a vida humana, doando-se em vida para que se corpo fosse estudado após a morte, um ato condenável, praticado em segredo. O tratamento mais comum utilizado pelos médicos e apotecários é o da sangria. Acredita-se que o corpo é controlado por quatro fluídos corporais chamados humores. Eles são a Bile Preta, Bile Amarela, Fleuma e o Sangue. O tratamento com sanguessugas equilibra os humores, prevenindo doenças.

Sexo

A sexualidade é tabu na maior parte da sociedade, mas nem por isso ela deixa de ser praticada. Existem documentos de padres e sacerdotes, utilizados como um padrão de questionário para mulheres em seus momentos de confissão, que podem passar bem a ideia do quão variada é a vida sexual das pessoas simples, ou mesmo abastadas. Questões como zoofilia, masturbação com auxílio de instrumentos, incesto e adultério fazem parte do questionário de confissão. O que mostra um sinal das tais práticas. Independente do quanto os sacerdotes tentem fazer homens e mulheres sentirem-se culpados por seus desejos e impulsos, o sexo é um elemento fundamental da vida humana.

seduction

Pelas doutrinas do Tribunal, é comum que as mulheres assumam um papel secundário na sociedade, apesar de nenhuma lei divina colocá-las desta forma. A submissão feminina não se estende ao momento íntimo dos casais. A excitação, o prazer do gozo, é tão importante para o homem quanto para a mulher. Acredita-se que um filho sadio só irá nascer quando ambos atingirem o seu ápice na relação. Isso gera um costume de taxar pessoas desequilibradas, ou mesmo com alguma deficiência, como resultado de um coito mal realizado.

No caso das famílias mais pobres, que compartilham do mesmo quarto, da própria cama, não existe a preocupação da privacidade para os momentos da relação entre os casais e em um mundo onde ter muitos filhos é sinal de boa aventurança, os casos de incesto entre irmãos e irmãs é muito mais comum do que os prelados gostariam de admitir. A homosexualidade é praticada de forma discreta. Algumas sociedades toleram a prática, mas a igreja recrimina em todo e em qualquer lugar. Existem algumas ordens cavaleirescas, como as Presas do Rubro, que aceitam a relação entre seus membros como uma evidência do estreitamento dos laços entre irmãos e irmãs na guerra.


Nos cultos antigos, voltados a Horda e aos Selvagens, o sexo era um elemento quase que central. É comum às heresias colocarem a sexualidade como tema central de seus cultos e louvores. É como se o estado pleno do prazer, do gozo sem constrangimentos, fizesse de sua ligação com o além, a Fímbria, o outro lado, mais forte. Quando dos primeiros reinados humanos, onde os cultos antigos ainda estavam entranhados no pensamento de todos, era comum o costume da primeira noite, onde a lua de mel de recém casados era passada na companhia do monarca. Isso mostra importância do sexo no selamento de acordos tão relevantes quanto o matrimônio.

medieval-bathing.jpg-2