Cavaleiros Mercantes

“Semper Fidelis!”
– Lema dos Cavaleiros Mercantes.
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Arte de Viktor Vasnetsov, aqui representando um Hussardo de Rastov.

A despeito do nome que recebeu por sacerdotes em suas torres intocadas, a Era da Luz mostra-se como um tempo de escuridão das relações em Belregard. O mundo encontra-se isolado em si mesmo, castelanias ainda atendendo pelo mesmo nome por uma mera conveniência e costume passado pelas gerações. Reis tentando puxar as cordas de suas cortes, mas sentindo-as se partirem quando cada homem passa a se considerar mais senhor de si. Tendo apenas a igreja para se voltar, só atendendo aos apelos de união quando a promessa de uma danação na Alcova Profana, ao invés do regalo da Abóbada Celeste, se faz ouvir da boca lépida de um prelado.
Nesse mundo de caminhos abandonados, até mesmo o comércio luta para manter-se vivo. Antigas casas mercantes encerraram suas atividades há muito tempo, outras tentaram meios duvidosos para manter o lucro e hoje, contra todas as expectativas, os chamados Cavaleiros Mercantes se erguem como uma grata visão para os que vivem isolados. Um movimento que iniciou-se na castelania de Varning, já famosa por sua dedicação ao comércio, tem se espalhado na medida em que os cascos dos cavalos se fazem ouvir em cantos afastados do mundo civilizado.
Não são nobres, apesar de um ou outro aspirante a cavaleiro real já ter vestido o manto de Mercante, mas gozam de uma certa fama nas comunidades em que agem. Destemidos, os Cavaleiros Mercantes costumam ser homens livres que, seja por falta de opção ou aspiração genuína, juntam o que podem para ganhar as estradas e novamente conectar cidades, vilas e reinos. Alguns vagam com pouco, sozinhos, carregando apenas o que precisam para sobreviver, ou ainda menos, outros andam em bandos, bem equipados e carregando estandartes.
Não são mercenários, não são simples andarilhos de estrada. Os Cavaleiros Mercantes normalmente trabalham para casas influentes, ou para monarcas interessados em saber o que pode existir além daquela floresta, ou daquela montanha, a dois, três, quatro dias de viagem de suas terras. Seriam caçadores de recompensa, caso o termo lhes coubesse.
Existem muitas formas de se tornar um Cavaleiro Mercante, alguns homens livres podem ser contratados por casas que dedicam-se ao comércio e desejam ampliar sua área de influência. Até mesmo nobres, como algum segundo ou terceiro filho que não herdaria muito dos pais, pode decidir essa vida quase autônoma no lugar da clausura dos monastérios. Nem todo caso é brando, existem os que contraem sérias dívidas e acabam sendo forçados a aceitar contratos que mais se assemelham a aceitação da escravidão, coisa que costuma ser repudiada nas castelanias. O que parece ligar todos estes homens, e mulheres, é o espírito livre, incapaz de se adequar no mundo monótono e fechado em si por esta era de trevas.
Acredita-se que os cavaleiros mercantes tenham sido inspirados pelas obras de S. Genaro, o Imbatível. Genaro foi um sacerdote do Tribunal que viveu no período da queda do Império. Ele viu as castelanias ruírem e entregarem-se ao caos. Enquanto todos procuraram a segurança de suseranos, Genaro convocou aqueles capazes e sem desejar nada em troca prestou serviços a senhores e vassalos, atravessando territórios em disputa para levar o que os necessitados precisaram e quando era confrontado tentava apelar para o amor ao Criador e quanto este era negado, fazia valer a força conquistada nos treinamentos diários da abadia de Leoric e logo trazia o arrependimento aos que se colocavam em seu caminho.
Genaro inspirou muitos e foi canonizado logo após sua morte. As casas mercantes de Varning fizeram uso de sua imagem, clamando por aqueles corajosos e benevolentes, conseguindo candidatos aos primeiros cavaleiros mercantes que, depois de um voto de pobreza para lembrar a humildade de Genaro, passaram a servir às casas que continham pelo menos um membro da igreja em seu grupo interno. Uma forma de se ajudarem. A igreja não condena o comércio daqueles que aceitam um dos seus por perto.
Logo a ideia se espalhou e muitas outras castelanias surgiram com um ideal semelhante, como os Cães de Belghor ou os Hussardos de Rastov. Com uma diferença ou outra em seu recrutamento, mas sempre com o desejo de fazer a diferença no mundo lançado à treva e com a total dedicação às suas casas mercantes.
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